O meu pai voltou recentemente de Itália. Acho que… é uma boa altura para começar a dar-me mais com ele. Vou tentar fazer com que ele volte a ser o que era dantes. Mas é compreensível… afinal ele esteve fora três anos. Não pareceu muito tempo enquanto ele estava longe. Mas, provavelmente seria porque eu já não… estava tão ligada a ele. Ele não parecia o mesmo quando voltou. Não seria o mesmo? Mas eu aceitei a sua diferença. Seria uma espécie de aventura, como ele costuma dizer. E eu acho que posso associar uma coisa com a outra. Queria voltar a sentir que estava tudo completo. E não vou desistir enquanto não conseguir. Porque é como um barco. Um barco… de papel, como aqueles que ele faz nos restaurantes. Que vai á deriva pelo rio Tua… e não sabemos onde vai parar. É um mistério. A aventura dele. Batendo nos seixos mais aguçados, e a desfazer-se quando a água se agita mais. E sabemos que a viagem nunca acaba. Porque não é forte o suficiente. Mas eu sei que não és vazio por dentro, … ou mesmo feito de papel. E sei que te aguentas. Porque eu quero. E porque tu gostas de ver as pessoas felizes. Por isso, aguenta. Vai apreciando o que perdeste estes anos. As árvores novas que cresceram, as pessoas que mudaram… vem ver a tua terra, a avó tem muitas saudades tuas. Por isso vive a tua vida, mas aguenta. Só um bocadinho. Só para eu ficar feliz. O relógio não funciona. Já não faz o tic-tac que tu gostavas. Ou que te irritava? Mas o teu coração continua a bater. Faz um barulho muito… repetitivo… mas… é interessante quase que me faz… adormecer. Como quando era pequenina e me pegavas ao colo, ou me trazias da banheira e fazias umas caras para eu me rir. E depois… vestia o pijama. E os meus olhos fechavam-se. E o silêncio e o escuro abraçavam-me. E eu, completamente inocente, adormecia. E o vazio instala-se. E rodeava-me… Mas eu quebrava tudo. Tinha pesadelos, e ia dormir para o teu lado. Pesadelos que te contava mais tarde. Coisas sem sentido… mas que tu ouvias sempre. E depois até achavas piada, até gostavas de ouvir. Achavas, divertido. Mas nem sabes o medo que eu tinha… Agora o que são pesadelos? São sangue. Sempre que tento adormecer penso em coisas macabras e mórbidas antes… e fico com medo de adormecer. Porque não estás lá… Mas agora estás, e não vou desistir da minha missão. Ter-te de volta!
Dedicado ao meu pai, adoro-te muito!
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lindo!!!...e para ti...
ResponderEliminar"Só,incessante, um som de flauta chora..."